Working hard is overrated

Much more important than working hard is knowing how to find the right thing to work on. Paying attention to what is going on in the world. Seeing patterns. Seeing things as they are rather than how you want them to be. Being able to read what people want. Putting yourself in the right place where information is flowing freely and interesting new juxtapositions can be seen. But you can save yourself a lot of time by working on the right thing. Working hard, even, if that’s what you like to do.

Working hard is overrated, Caterina Fake

A II Guerra Mundial

Ignorando, e corrigindo, o primeiro parágrafo – já não podemos exigir muito da cabeça de VPV, quanto mais que faça contas, coitado – aqui fica a sua síntese sobre a II guerra mundial. Quanto aos dados históricos, é possível que tenham também eles erros, mas desses percebo pouco portanto assim ficam.

Faz 30 anos 70 anos terça-feira próxima [hoje] que a II Guerra começou, quando Hitler invadiu a Polónia. Isto foi possível, em primeiro lugar, porque entre 1918 e 1939 as duas grandes potências mundiais não estiveram presentes na política europeia: a América passava por um período de estrito isolacionismo (que uma lei de neutralidade confirmava) e a URSS, temida e subestimada, fora posta de quarentena pelo horror do Ocidente à revolução. A Alemanha ficava assim sozinha e, na prática, parecia irresistível. A França era um país semi-industrializado e pacifista; a Inglaterra não queria arriscar um Império já periclitante com uma nova intervenção no continente. Hitler julgou que tinha o caminho livre e que o “apaziguamento” (ou seja, o sucesso da chantagem dele) demonstrava a definitiva fraqueza das democracias.

Na essência, o nazismo nunca passou da mobilização da Alemanha para uma guerra rácica (e de extermínio) a leste, que Hitler já anunciara no Mein Kampf. Em princípio, ocupação da Noruega, da Dinamarca, da Holanda, da França e, um pouco contrariadamente, da Jugoslávia e da Grécia só se destinavam a assegurar a retaguarda do Reich. A verdadeira guerra acabou, de facto, por ser a leste. As baixas do Exército Vermelho excederam em muito as da América e da Inglaterra (12 a 14 milhões contra à volta de 300.000 da Inglaterra e 400.000 da América). A maior parte dos judeus que morreram no Holocausto (à volta de 70 por cento) vinham da Polónia, da Ucrânia, de Bielorrússia, dos países bálticos, da Roménia, da Hungria e da Checoslováquia. E, proporcionalmente, as perdas civis seguiram quase o mesmo padrão (Bielorrússia, Polónia, Ucrânia, Rússia) e, em conjunto, chegaram na antiga URSS a perto de 20 milhões (estes números são estimativas e variam de autor para autor).

Hitler imaginava que o regime soviético, como o dos czares, cairia perante uma derrota militar. Não caiu e, a partir de 1942, a indústria de armamento transferida para o interior começou a produzir mais do que a Alemanha. Pior ainda, a sobrevivência da Inglaterra e a terceira eleição de Roosevelt envolveram a América crescentemente no conflito. Hitler resolveu antecipar o inevitável e, sem necessidade imediata, em Dezembro de 1941 tomou a iniciativa de lhe declarar guerra. Depois disso, nada o podia salvar. O terror (a perspectiva de represálias da URSS e dezenas de milhares de fuzilamentos) conseguiram aguentar a Wehrmacht em campo e a “limpeza rácica” continuou até à destruição da Alemanha. A paz, como é óbvio, deixou a Estaline a Europa central, totalmente ocupada pelo Exército Vermelho.

— Vasco Pulido Valente, no Público de Domingo

A Junta do Motor

Só faltava que me sentasse um dia atrás do volante a fim de receber do instrutor as lições práticas que deveriam culminar no exame e na sonhada aprovação que me permitiria ingressar na ordem social cada vez mais numerosa dos automobilistas encartados. Contudo, esse dia maravilhoso nunca chegou. Não são apenas os traumas infantis que condicionam e influem a idade adulta, também os que se sofrem na adolescência podem vir a ter consequências desastrosas e, como no presente caso sucedeu, determinar de maneira radicalmente negativa a futura relação do traumatizado com algo tão quotidiano e banal como é um veículo automóvel. Tenho sólidas razões para crer que sou o deplorável resultado de um desses traumas. Mais ainda: por muito paradoxal que a afirmação vá parecer a quem das íntimas conexões entre as causas e os efeitos somente tiver ideias elementares, se nos meu verdes anos não tivesse trabalhado como serralheiro-mecânico numa oficina de automóveis, hoje, provavelmente, saberia conduzir um carro, seria um orgulhoso transportador em lugar de um humilde transportado.

Além das operações que comecei por referir, e como parte obrigatória de algumas delas, também substituía as juntas dos motores, essas finas placas forradas de folha de cobre sem as quais seria impossível evitar fugas da mistura gasosa de combustível e ar entre a cabeça do motor e o bloco dos cilindros. (Se a linguagem que estou a usar parecer ridiculamente arcaica aos entendidos em automóveis modernos, mais governados por computadores do que pela cabeça de quem os conduz, a culpa não é minha: falo do que conheci, não do que desconheço, e muita sorte que não me ponha aqui a descrever a estrutura das rodas dos carros de bois e a maneira de atrelar estes animais ao jugo. É matéria igualmente arcaica em que também tive alguma competência).

— José Saramago, entrada completa no seu caderno.

Na árvore já não há

Os pêssegos, sozinhos, constituem o sexo feminino de todas as frutas. O artigo está mal posto. Os pêssegos-rosa de Colares (que tanto vêm de Janas, como do Mucifal, ou de Fontanelas ou da Adraga, como até, em casos limítrofes, de Colares), são um milagre que só nos resta aceitar.

Duram, quanto muito, quatro dias em Agosto. Nem tanto. Os pêssegos são melindrosos e massacrados não só por moscas mediterrânicas como por melros e pardais bem portugueses. Todos sabem o que é bom. A fruta com bicho é aquela que a natureza (ou Deus, conforme se preferir) abençoa.

Os pessegueiros são bravos – nem sequer precisam de ser regados. Morrem muito novos. São predispostos à desgraça. Mas, caso se safem, abençoam-se de sabor. E o cheiro enche uma sala inteira de amor.
Anteontem, disseram-me, deixou de haver “nas árvores”. Os poucos que restam estão em frigoríficos: “senão, não havia até ao fim de Agosto”.

Armado em bom, eu disse ao distinto casal de fruticultores de Janas que me abasteceu, que eu tirava sempre os pêsegos do frigorífico duas horas antes de comê-los.

“Duas horas antes?” Fartaram-se de rir! Então explicaram-me, com graciosa condescendência e generosidade, que os pêssegos-rosa têm de ser “tirados à noite, para o outro dia”. Seja: precisam de uma noite escura e fresca para recuperar a fragância e a suculência.

De noite não apodrecem. Repôem-se bons, enquanto dormimos. Era este o segredo que me estavam a dizer.

— Esteves Cardoso, no Público de hoje

Novamente Lobo Antunes

Não tenho tempo para ler mais do que crónicas ultimamente. Novamente, Lobo Antunes:

A torneira do lava-loiças pingava lágrimas custosas que não tombavam logo, rodeavam o bico primeiro, hesitando, até acederem num desgosto pesado. De minuto a minuto uma melancolia transparente achatava-se no ralo, uma nova tremura principiava a inchar. As árvores fabricavam um ventinho distraído. A senhora levou o retrato para a sala: presumo que conversavam de barcos.

(…)

Segundo a proprietária do quiosque de revistas deu-lhe um aneurisma

(- Essas veias que rebentam)

e ficou negro no soalho, a espernear. Quando acabou de espernear a boca aberta numa surpresa enorme, a dentadura a descolar-se

(- Uma dentadura cara, com ganchos de arame para agarrar lá atrás)

http://aeiou.visao.pt/a-dona-olga-e-eu=f526420

Shared Items

Como é difícil ter tempo e paciência (até vou tendo um ou outro, mas os dois simultaneamente é como os eclipses solares, raro) para escrever no blog, mas às vezes até encontro umas coisas interessantes pela internet fora, decidi deixar na barra do lado direito uma listinha de links para elas.

Vão dando uma olhada à lista «Shared Items», e poderão encontrar um pouquinho de maravilha-de-internet. Como disse uma vez o pai dum amigo meu: «É do caralho, a internet». Não fui eu que disse, foi ele!…

Ah, se preferirem ver os shared items mais arrumadinhos, podem usar este link: http://www.google.com/reader/shared/dryginlogic

Quando se é novo é para toda a vida

Não sei a idade dele. Tem o cabelo branco, o bigode branco, rugas em parênteses sucessivos dos lados da boca, um dos olhos morto, sepultado no caixão das pálpebras, as mãos tremem um bocadinho à procura das coisas e dá-me a impressão que as coisas o ajudam aproximando-se, misericordiosas

– Agora podes

da dificuldade dos dedos. Quando estão viradas para esse lado as coisas são simpáticas, quando não estão escapam-se da gente, rolam, escorregam, caem no soalho, partem-se: é preciso tratá-las com bons modos ou apanhá-las distraídas, de costas para a gente, saltar-lhes para cima

– Já cá cantas

e as coisas, que remédio, aceitam. Então convém segurá-las pelo pescoço, de preferência com os dentes, e esmagar-lhes as vértebras num movimento rápido, como os leopardos fazem aos antílopes. Esmagar-lhes as vértebras talvez não seja boa ideia porque as coisas amolecem e deixam de servir. O melhor é seduzi-las devagarinho, sorrir-lhes, soprar piropos, adulá-las, pedir

– Anda cá copo, anda cá garfo

e pegar-lhes numa firmeza doce, a murmurar ternuras. Ao poisá-las, logo que vier a pergunta aflita

– Deixas-me assim?

responder

– Eu já volto

ou

– Depois telefono

e se as coisas estranharem

– Nem sequer tens o meu telemóvel

fingir que se toma nota no nosso, visto que vamos precisar delas de novo e convém manter uma relação de pré-namoro implícita. Quantas jarras não se quebram por falta de ternura, quantas tesouras desaparecem das gavetas, desiludidas connosco, quantas lâmpadas não se fundem na sequência de falta de carinho? E quando as casas deixam de gostar de nós e nos começam a enxotar para a rua? Quando as camisas perdem um botão de punho de propósito, sentindo-se abandonadas? E as nódoas que arranjam para se vingar da gente? A empregada lavou-as, engomou-as e elas

pumba

uma nódoa ressentida. Quem quiser ter paz não pode provocar as coisas, entristecê-las, tirar-lhes a esperança de um futuro em comum, senão a vida torna-se impossível: um pneu em baixo, a chave que a fechadura recusa, a caneta que perde a tinta a meio de uma frase, os iogurtes que levaram sumiço do frigorífico e ainda ontem lá estavam. Aproveitaram o outono para emigrar, como os patos bravos e as turistas suecas, e corre-se o risco de, ao entrar em casa, quase nem um móvel e um alicate, na poltrona, a magoar-nos a nádega. Apanhamos o alicate, exigimos explicações

– Como é que vieste aqui parar?

e explicação alguma, uma mudez feroz, ultrajada. Voltando ao início não sei a idade dele. Tem o cabelo branco

(não se esqueçam das coisas)

o bigode branco

(tive de mudar de esferográfica, aí têm a prova do que disse)

rugas em parênteses sucessivos dos lados da boca, um dos olhos morto, sepultado no caixão das pálpebras, as mãos tremem um bocadinho, ao expirar o bigode horizontal, ao inspirar mete-se-lhe na boca, a perna esquerda, mais complicada que a direita, de joelho acima ou abaixo do outro, arrasta-se num ímpeto tracejado

(o professor do liceu para mim

– A tracejado, burro, não a cheio

diabético e cruel, cheirando a rosas podres, e eu com medo que a tinta da china do tira-linhas pingasse

– Vê lá se pingas isso tudo, palerma)

o fato conheceu melhores dias, o nó da gravata desaparece num dos lados do colarinho

(oxalá esta esferográfica aguente, não fui amável com ela)

e, no entanto, não sei quê nele com dezoito anos, o sorriso, um meneio, uma aura de inocência, um apetite de caramelos e comboios de lata que não sou capaz de definir e lhe flutua em torno. Espera comigo na loja do cidadão a fitar tudo num espanto de primeira vez, encantado, deve apaixonar-se por lagartixas, bolos de creme, anéis de feira, palhaços, ser uma desgraça no tracejado, como eu. Há muito tempo que não via tanta infância em ninguém. Tira um relógio da algibeira

(um relógio de brinquedo, aposto, de ponteiros impressos no mostrador)

verifica as suas dez horas e dez horas perpétuas, volta a guardá-lo, satisfeito. Quantas vezes não desenhei relógios no pulso, com um pincel? Enquanto ele guarda o relógio aproveito para espreitar o meu e, a gouache encarnado, dez horas também, está certo. O único problema dos relógios desenhados é que se desbotam num instante, é preciso reforçar as dez horas dia sim dia não. Disse-lhe a exibir os meu ponteiros

– Nenhum de nós se atrasa

e ele, do fundo do bigode, a piscar-me o olhinho que sobra

– Sempre fomos pontuais não é?

isto afirmado não com a boca, com o único dente

(o que aconteceu às esferográficas que pifam umas atrás das outras?)

por sinal escuro, por sinal grande, se tivesse à mão uma lagartixa dava-lha, um comboio de lata, caramelos, encontram-se compinchas por todo o lado, quando o seu relógio de brinquedo e o meu relógio feito a pincel marcarem dez e meia

(dez e meia não, as aulas acabam ao meio-dia e meia)

fazemos uma corrida a ver quem chega mais depressa ao coreto do largo, perto do homem que vende castanhas no inverno e gelados no verão, podemos fumar um cigarro às escondidas, podemos tentar apanhar um pombo

(nunca consegui apanhar nenhum)

podemos comparar a profissão dos nossos pais e perceber qual é o mais importante, podemos fazer braço de ferro

(como sou canhoto com a esquerda ganho sempre)

podemos esquecer-nos um do outro que não faz mal porque arranjámos um amigo, vou-me à caixa do algodão da minha mãe, tiro um bocado, enrolo-o, aplico-o contra o intervalo entre o nariz e a boca e fico com um bigode muito maior que o dele.

António Lobo Antunes @ Visão

Rails file upload

Por alguma razão obscura o Rails 2.2.2 lida com ficheiros de diferentes tamanhos da seguinte forma:


# actionpack 2.2.2
# lib/action_controller/request.rb
content =
if 10240 < body_size
UploadedTempfile.new("CGI")
else
UploadedStringIO.new
end

O que faz com que seja preciso algum cuidado ao lidar com os parâmetros no lado do controller. No meu caso tinha um bug porque o meu código estava à espera de um File e não de um UploadedStringIO. O problema ficou resolvido com o seguinte código:

if params[:data].instance_of? ActionController::UploadedTempfile
path = params[:data].path
else
f = File.open("#{RAILS_ROOT}/tmp/#{Digest::MD5.hexdigest(Time.now.to_s+'~')}", 'wb')
f << params[:data].read
f.close
path = f.path
end

Kurika

… alguns moradores queixaram-se do pólen que lhes caía sobre os carros, é gente que dobra o pijaminha, não gosta de árvores, nem de melros, nem de cães, a propósito, escusas de baixar o pescoço para eu te pôr a trela, não vou descer contigo ao jardim levando pela mão uma trela sem nada ou, pelo menos,  com um cão que só eu pressinto.

Cada vez que leio «é gente que dobra o pijaminha» sorrio para dentro :)

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